Encaro o que tanto me sufoca,
Sinto-me o rio que corre por vias
Mas, diante da aridez por sua volta,
Dá as costas, vendo-se secar, passar as vidas...
Ao mesmo tempo sinto-me o indivíduo
Em meio as águas que ele próprio provoca
Perdendo tudo pelo fluxo, como um assobio
Desafinado, que ali tem seu sentido, que sempre precisa da nota...
Sinto-me no sufocar como de um agressor
Mãos à garganta, força e despedida
Sendo que as mãos inimigas ele próprio criou
E sufocado, muitas vezes sofria, e fugia, fugia...
Não se acha outra palavra para ele, além de dor...
Olhos que encaram, poderosos, famintos,
No entanto, cegos que mal sabem o que é cor
Mas vislumbram reflexivos, construindo labirintos e labirintos
Sinto-me um sono profundo, contínuo
Rodeado de pesadelo, apenas por esquecer o sonho todo
Encaro o que assusta, dormindo
Não vendo na realidade o que sufoca: vivendo morto.
“Fajuto”, por André Carvalho.
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