sexta-feira, 26 de junho de 2009

Fajuto

Encaro o que tanto me sufoca,

Sinto-me o rio que corre por vias

Mas, diante da aridez por sua volta,

Dá as costas, vendo-se secar, passar as vidas...

Ao mesmo tempo sinto-me o indivíduo

Em meio as águas que ele próprio provoca

Perdendo tudo pelo fluxo, como um assobio

Desafinado, que ali tem seu sentido, que sempre precisa da nota...

Sinto-me no sufocar como de um agressor

Mãos à garganta, força e despedida

Sendo que as mãos inimigas ele próprio criou

E sufocado, muitas vezes sofria, e fugia, fugia...

Não se acha outra palavra para ele, além de dor...

Olhos que encaram, poderosos, famintos,

No entanto, cegos que mal sabem o que é cor

Mas vislumbram reflexivos, construindo labirintos e labirintos

Sinto-me um sono profundo, contínuo

Rodeado de pesadelo, apenas por esquecer o sonho todo

Encaro o que assusta, dormindo

Não vendo na realidade o que sufoca: vivendo morto.

“Fajuto”, por André Carvalho.

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